parece mesmo

Friday, March 18, 2005

Eu?

Tenho uma vontade inocente de te contrariar e dizer que a minhoca entrou no buraco e não voltou a sair. Ver-te ali de olhos no chão, à espera do regresso da minhoca à superfície, farta eu de saber em que maçã ela tinha entrado.
Não sei que prazer escondido, inocente, me dá contrariar-te.

Monday, March 07, 2005

Posso chamar-te assim?

Passarinho abandonado mas não muito triste, dada a sua condição. Prado verde de grandura imensa e sol transparecendo na alminha que pensou não ter. Comera minhocas e carregava o seu peso no estômago e no peito apertado. Mas a fome aperta mais, e ele comeu-as chorando.
Esta ideia de comer outros bichos demorou a acomodar-se dentro dele e quando voava já alto no céu que nos acoberta dedicava acrobacias às suas vítimas nutrientes.
Pensava também que se, algum dia, alguém maior decidisse comê-lo, não teria medo nem raiva e tentaria cantar baixinho dentro desse corpo que o quis, para o animar nas horas tristes e dar-lhe coragem para ir comendo outros e outros, e forças para se resignar no momento em que ele próprio seria comido por outro ser poderoso e esfomeado.
Abria as asas e acabava por se distrair destas realidades de mundo cruel e pensar só no azul do céu, só na subida alegre e na descida de paixão e vertigem, só no plano do voo rasgante e no planar dos anjos escondidos que eram os únicos que o acompanhavam.
Um dia encontrou um amigo. Achou estranho poder partilhar os seus anseios e angústias e sonhos e alegrias com alguém. Alguém que não o queria comer, que ele não queria comer. Alguém do seu tamanho, por dentro e por fora. Era um amigo.

Voaram juntos
e calhou que foram sempre sobrevivendo.
E muito mais tarde morreram juntos
de morte natural
de morte esperada
já não podiam viver mais
eram dois avós passarongos sem netos, sem poiso
mas com um amigo cada um.

Friday, February 11, 2005

Um cigarro

Apetece-me um cigarro, um copo de água, ser outra.
Ter-te nos braços. Ser tua como no sonho da semana passada.
Se me lembro, chegaste perto e sussurraste amo-te como quem me lambe a orelha de paixão. Acordei de imediato, não podia continuar aquele sonho, não tive forças. Foi muita emoção. Apetece-me um cigarro, desculpa repetir, mas é o que me apetece. Foi o que fiz ao acordar daquele sonho de ti a lamber-me a orelha ao som do amo-te mais incrível que eu senti em mim. Nunca ninguém me amou como naquele instante em que acordei. Eu não sabia que sonhava, acordei porque te queria ver melhor. E fumei como se fosse a ti que fumava, lentamente, tomando o gosto que imagino que o teu corpo tem e bebi a água e molhei a cara e molhei o peito e senti-me tua mas senti-me só.

Wednesday, December 22, 2004

OH

Ficas triste se eu nunca te disser onde a alma vai? Ficas velho se eu esperar e se te surpreender sem fôlego? Aborrecem-te as minhas perguntas que saltam à corda na vida sem avisar ninguém?

Nem sei que ninguém passou por aqui. Nem sei que pergunto, nem onde a alma vai.

Monday, December 20, 2004

Juízo

Um dia acordaste e o teu ursinho já não estava lá.
Não ficaste nem triste nem contente.
Pensaste só que o dia ia ser longo.

Tuesday, December 14, 2004

Voar

Se eu conseguisse sair daqui
Se tivesse mil asas para me levar para perto do sonho
Se o vento fosse amigo do meu desejo de ser mais livre
Se nada me prendesse
Nem esta corda bamba que sustenta os meus pensamentos sentidos
Se eu quisesse...

Estreei uma lua nova e derrubei o chão
Corri com saltos baixos e tropecei na certeza
Afoguei o querer
Sem querer

Thursday, December 09, 2004

Aperto

Tenho esta página e a vida. Não escrevo versos para não gastar o espaço em branco. Não cabe uma lágrima entre o que sinto e o que vejo em ti. Lembrei-me de ir ver se está sol. O mar engoliu-o e só ficou a luz. Que abraço triste o que não me dás.